10. CULTURA 10.10.12

1. ALM DOS MSCULOS
2. A "BBLIA" NAS TELAS
3. AL, MARLIA!
4. O SOF EST VAZIO
5. EM CARTAZ  CINEMA - UM VILAREJO EM PNICO
6. EM CARTAZ  LIVROS - O PODER DAS PALAVRAS 
7. EM CARTAZ  FOTOGRAFIA - VOO SOBRE O RIO
8. EM CARTAZ  DVD - CINCO HISTRIAS PARA UMA ATRIZ
9. EM CARTAZ  MSICA - PORTENHO INTERNACIONAL
10. EM CARTAZ  AGENDA - CAPITAIS DO DELITO/EVANESCENCE/ASGER JORN
11. ARTES VISUAIS - PARA COMER COM OS OLHOS
12. ARTES VISUAIS - CINEMA MARGINAL INSPIRA PROJETO PIV

1. ALM DOS MSCULOS
Em sua autobiografia, o ator e ex-governador da Califrnia Arnold Schwarzenegger fala de traio e de como o Papa o ensinou a tirar mais proveito dos exerccios
Marcos Diego Nogueira

MISTER UNIVERSO - Schwarzenegger, em 1977, quando trocou a carreira de fisiculturista pela de ator: um austraco no cl dos Kennedy
 
Roupa suja se lava em casa, mas, em tempos de exposio total, o astro de Hollywood e ex-governador da Califrnia Arnold Schwarzenegger decidiu fazer isso em pblico. Na autobiografia A Inacreditvel Histria de Minha Vida (Sextante), que agitou as livrarias americanas esta semana e chega ao Brasil em novembro, o ator austraco conta tudo sobre um dos maiores escndalos recentes do meio cinematogrfico: a sua separao da jornalista Maria Schriver, aps um caso extraconjugal. Foi numa sesso de terapia de casais, no ano passado, que a j desconfiada Maria lhe perguntou se tinha algum filho fora do casamento. No captulo O Segredo, Schwarzenegger revela como confessou  sua companheira de 25 anos de convivncia a sua traio com a empregada do casal, Mildred, na relao em que nascera o garoto Joseph. Maria e as crianas estavam de frias e eu fiquei para finalizar Batman e Robin. Mildred trabalhava para ns havia cinco anos e, de repente, nos vimos sozinhos na casa de hspedes, detalha o astro.

SIMPATIA - Com o ex-presidente Bush (no alto,  esq.), a ex-mulher Maria Schriver (no alto) e Joo Paulo II: no centro do poder
 
Sobrinha dos falecidos John e Robert Kennedy, Maria foi uma pea fundamental nas eleies que levaram o marido ao poder na Califrnia, pelo Partido Republicano. Mas  longe do jogo poltico que a proximidade com os Kennedy rende boas passagens, a exemplo de quando o ator se obrigou a aprender tnis em menos de uma semana para satisfazer aos pedidos de Ethel, viva de Robert. Ela o convidara para um torneio que leva o nome de seu falecido marido e Schwarzenegger no teve como rectusar: Levei horas para decidir se aceitava. As amizades na Casa Branca foram mais longe. A fama o aproximou tambm do ento presidente Ronald Reagan e do seu vice, George Bush (pai), a quem ajudou at a deixar os discursos mais atraentes: Ele estava sofrendo uma disputa desleal com os democratas nas eleies de 1988. O meu trabalho era o de atrair a ateno do povo para que ele falasse.

Ecltico nas relaes, ele narra como se aproximou do rei do underground Andy Warhol, de quem foi modelo no incio de carreira. Warhol mantinha-lhe abertas as portas de seu estdio The Factory, em Nova York e foi nessa poca que Arnie (seu apelido) bateu uma bolinha com Pel. Seu encontro mais surpreendente, contudo, se deu com o papa Joo Paulo II, nos anos 1980. Na audincia privada, o ex-fisiculturista e Mister Universo esquivou-se dos assuntos eclesisticos e preferiu falar sobre um assunto comum aos dois: malhao. Eu sabia que ele acordava s 5 horas, lia os jornais em seis lnguas diferentes e fazia 200 flexes e 300 abdominais, tudo antes do caf da manh. E que esquiava tambm, mesmo depois de ter assumido o papado, escreve o ator. Admirado com o fato de Sua Santidade ser 27 anos mais velho do que ele e to conservado, decidiu acordar mais cedo. E ler mais jornais.


2. A "BBLIA" NAS TELAS
Com a sua fantstica fbrica de efeitos especiais, Hollywood aposta nas histrias religiosas e no herosmo dos personagens 
Ivan Claudio

 ME DE DEUS - Cena do filme Maria, Me de Cristo: como Jesus foi salvo da matana dos inocentes 

Entre os filmes mais vistos do cinema, o pico bblico Os Dez Mandamentos, sobre a fuga do povo judeu do Egito, ganhou sete Oscars, inclusive numa rea na poca ainda incipiente: a dos efeitos especiais. Para criar tempestades de areia foi usada uma esquadrilha de avies da fora area egpcia. Mais de um milho de litros de gua foram derramados em um reservatrio na simulao da travessia do Mar Vermelho por Moiss, momento antolgico do enredo de quatro horas. Como hoje a fria da natureza e as reconstituies histricas so mais facilmente criadas pela computao grfica, Hollywood mira o passado e tenta dar nova vida aos espetaculares filmes religiosos: vem a um dilvio de histrias sagradas. 

O primeiro entre os blockbusters bblicos j em produo  No, de Darren Aronofsky, que trata justamente das chuvas torrenciais que levaram o pastor do ttulo, papel de Russell Crowe, a criar uma arca e colocar nela um casal de cada espcie animal. A maior expectativa, contudo, est na reedio da histria de Moiss preparada por dois pesos-pesados do cinema espetculo: Steven Spielberg e Ridley Scott. Spielberg mantm sigilo sobre o seu filme, que vai se chamar Deuses e Reis, mas h comentrios de que a trama ser um cruzamento de Corao Valente e O Resgate do Soldado Ryan. Scott adiantou  revista Esquire que o seu Exodus trar um perfil indito do lder judeu: No estou interessado no lado heroico conhecido de todos, mas em sua relao com o fara Ramss II, no ensinada nem nas escolas.

Como a Bblia  um livro aberto a muitas interpretaes e permite polmicas contextualizaes histricas, divergncias j so esperadas.  consenso, no entanto, que o retorno aos temas bblicos coincide com um esgotamento do filo de super-heris e de adaptaes de videogames. Sem falar que as escrituras so de domnio pblico e fornecem enredos de graa para os estdios. Produtor de Golias, Wyck Godfrey disse  revista Hollywood Reporter que tanto seu filme como os outros em pr-produo se beneficiam de formatos j existentes. A histria de No vai pela linha da aventura e as biografias de Moiss e Judas Macabeus, pelo lado da ao e violncia, diz. Ajustar esses enredos aos formatos populares no apresenta grandes dificuldades. Mas todo cuidado  pouco em relao  abordagem, ensinam os roteiristas do gnero. Stuart Hazeldine, autor do script de Deuses e Reis, aponta para o perigo das vises que extrapolam demais: Prefiro ficar nos limites da teologia ortodoxa. Se voc erra a mo, atrai o protesto como aconteceu com A ltima Tentao de Cristo.
 
O exemplo do filme de Martin Scorsese  perfeito. Ao avanar no tema tabu da vida sexual de Jesus, a produo caiu em desgraa e amargou uma bilheteria de apenas US$ 8 milhes. E isso  o que Hollywood mais teme. Feito ao custo de US$ 130 milhes, No vai ser submetido a uma comisso de telogos e passar por sesses-teste antes do corte final. Esse risco no ameaa os ttulos da produtora Origin Enterteinment, de orientao catlica, que j deu sinal verde para Maria, Me de Cristo, com a atriz israelense Odeya Rush no papel principal. Escrita pelos mesmos autores de A Paixo de Cristo, de Mel Gibson, a histria est sendo vendida como uma prequel (prembulo) do polmico filme que rendeu US$ 620 milhes e abordar a matana dos inocentes promovida por Herodes, papel de Ben Kingsley. No caminho oposto, o diretor holands Paul Verhoeven j est preparado para ser apedrejado. Aps quatro anos de tentativas, com o boom bblico ele vai levar s telas o seu livro Jesus de Nazar, resultado de discusses com o grupo de estudiosos da organizao Jesus Seminar. Em sua verso, Cristo vai aparecer como uma espcie de terrorista durante o imprio romano. Baseado nos escritos do filsofo grego Celsus, ele vai mostrar tambm que Jesus no era filho de Jos, mas de um centurio. Mais blasfemo, impossvel.  


3. AL, MARLIA!
Os veteranos Miguel Falabella e Marlia Pra criam em "Al, Dolly!" a "Broadway com dend"
 Mariana Brugger

 PROJETO - Os atores vo atuar juntos de novo em 2013: Estamos casados artisticamente
 
Um dos clssicos da cano americana, a msica Hello, Dolly ficou conhecida especialmente pelo dueto de Louis Armstrong e Barbra Streisand. Agora vai ganhar a sua verso brasileira na voz de Marlia Pra e Miguel Falabella, que estreiam na sexta-feira 12 (Teatro Oi Casagrande, Rio de Janeiro) o musical ao qual pertence a msica Al, Dolly!. A dupla de atores que j assinou parcerias de sucesso nos palcos e na tev, sempre com um olho na ribalta e outro nos bastidores, divide a cena pela primeira vez. E em um espetculo que os fascina desde a sua primeira montagem no Brasil, em 1966, com Bibi Ferreira no papel da viva casamenteira Dolly Levi. 

Na poca, Marlia chegou a fazer testes para participar como bailarina, mas no foi aprovada. Falabella, ento com 8 anos, conseguiu um lugar na plateia e se apaixonou pelo que viu. Precisou esperar pela moda dos musicais para que o encontro entre os atores e o personagem acontecesse. Temos uma longa histria, mas ainda no tnhamos atuado juntos, conta Falabella, que teve a sua pea de formatura no curso Tablado dirigida por Marlia. O Miguel tem muitas amigas atrizes e se cerca delas nos seus projetos. Agora chegou a minha vez, completa Marlia, lembrando que o par romntico com o amigo se repetir na televiso, no seriado P na Cova, que estreia em janeiro do ano que vem. Estamos casados artisticamente, diz a atriz.

O espetculo se passa no final do sculo XIX, em Nova York, onde a protagonista, viva h muitos anos,  conhecida por formar casais. Contratada pelo mal-humorado comerciante interiorano Horcio Vandergelder (Falabella), ela decide fisgar o milionrio para si prpria. Para tornar a produo mais atraente aos brasileiros, Falabella (que tambm  o diretor) se permitiu algumas liberdades na adaptao, cortando texto e msicas. Ningum mais aguenta musicais de trs horas. Minha Broadway tem molho de dend, afirma.


4. O SOF EST VAZIO
Formada na turma de pioneiros da tev, Hebe Camargo no tinha apenas um talento: reunia todas as caractersticas apropriadas a esse meio de comunicao
Marcos Diego Nogueira

 TCNICA 
O selinho e as gracinhas de Hebe eram apenas charme: segundo estudioso, ela nunca se colocou acima do seu pblico
 
Com a morte de Hebe Camargo, no sbado 29, aps uma carreira de 57 anos de sucesso, encerra-se a mais longa trajetria de um artista na televiso. Tanto tempo no ar no se explica apenas pela fidelidade a uma frmula consagrada: alm de ter sido formada na gerao pioneira da implantao da tev no Brasil  e tambm por isso , Hebe desenvolveu um estilo, habilidade conferida apenas a quem domina totalmente o seu meti. O segredo do seu sucesso  que ela reunia uma srie de caractersticas tcnicas apropriadas a essa mdia. Fora isso, no dava a entender que tinha mais sabedoria do que seu pblico, afirma o professor de sociologia da USP Sergio Miceli, autor do livro A Noite da Madrinha e Outros Ensaios Sobre o ter Nacional, dedicado  apresentadora. 

Hebe, que tinha 83 anos, consagrou-se numa poca em que a guerra de audincia no era to acirrada e, ainda assim, dominava os segredos da comunicao direta com o pblico. Sua receita era simples, natural como a sua personalidade: travar uma conversa no aconchego de uma sala de estar, num clima de intimidade que cativava o espectador. Ela me ensinou desde a sentar no sof at como me aproximar da realidade, diz a atriz e apresentadora Adriane Galisteu, uma de suas seguidoras, junto com Ana Hickmann e Luciana Gimenez. Generosa com as pupilas, Hebe lhes dava dicas pelo telefone: Uma vez me disse que se eu tivesse vontade de chorar em frente s cmeras, que o fizesse, conta Adriane. 

Alm de ter feito escola, a apresentadora tinha independncia. Passou pela TV Tupi, Record, Bandeirantes, RedeTV! e se preparava para reestrear no SBT, onde trabalhou 25 anos. O capital de prestgio que ela conseguiu acumular independia do conglomerado ao qual estava associada, afirma Miceli. O improviso tambm estava entre seus trunfos. Trabalhar sem roteiro, sem ser rebelde e sem fugir completamente do que o diretor est pedindo era tambm sua habilidade, diz Adriane. Rainha da tev, Hebe deixa vazio o trono  e o sof.


5. EM CARTAZ  CINEMA - UM VILAREJO EM PNICO
por Ivan Claudio
Sempre original, embora algumas vezes pendendo para o absurdo, o cineasta americano Wes Anderson no decepciona os fs de seus enredos surpreendentes em seu novo filme, a comdia de alto teor de fantasia Moonrise Kingdom, em cartaz na sexta-feira 12. Para que suas histrias sem p nem cabea sejam convincentes, Anderson nunca erra em seu elenco de feras  desta vez os protagonistas so Bruce Willis, Edward Norton e Bill Murray, respectivamente nos papis do xerife, do chefe escoteiro e de um pai de famlia, moradores de uma ilha nos anos 1960. Os trs esto s voltas com um casal de adolescentes que fugiu de casa para viver um grande amor. Acreditando que os garotos foram sequestrados, iniciam uma incansvel busca, mas so prejudicados por uma violenta tempestade.
 
+5 filmes de Wes Anderson
OS EXCNTRICOS TENENBAUMS 
A vida de trs irmos muda de rumo quando o pai deles cancela o divrcio e reata com a mulher
 
O FANTSTICO SR. RAPOSO
 Animao sobre uma raposa que enfrenta fazendeiros que querem destruir sua famlia
 
VIAGEM A DARJEELING
 Aps a morte do pai, trs irmos exploram o lado fraterno em uma viagem  ndia
 
A VIDA MARINHA COM STEVE ZISSOU
 Um explorador subaqutico busca a redeno com a produo de um filme pico
 
TRS  DEMAIS
 Jovem universitrio disputa com um magnata depressivo as atenes de uma professora


6. EM CARTAZ  LIVROS - O PODER DAS PALAVRAS 
A fora da oratria  conhecida desde os tempos bblicos e  justamente com o Sermo da Montanha, de Jesus Cristo, que se inicia a interessante compilao Discursos que Mudaram a Histria (Prumo), organizada por Nicolau Sevcenko. Na sequncia, alinham-se falas antolgicas de Napoleo Bonaparte, Martin Luther King e Osama Bin Laden, com o intuito de mostrar quanto um pensamento bem articulado pode mudar os rumos da histria.


7. EM CARTAZ  FOTOGRAFIA - VOO SOBRE O RIO 
Vistas panormicas so feitas geralmente em enquadramentos horizontais, segundo as regras da perspectiva tradicional. Nas 19 imagens do livro Entre Morros (Cosac Naify), a fotgrafa carioca Claudia Jaguaribe usa, em sua maioria, o formato vertical que possibilita escalonar os muitos planos da paisagem do Rio de Janeiro. Feitas de helicptero e de mototxis e manipuladas em colagens digitais, as fotos revelam ngulos inusuais fundindo floresta, morro, asfalto e oceano. Alm de remeter  representao da Baa de Guanabara feita por Marc Ferrez e Georges Leuzinger, elas mostram como a cidade se organizou nas ltimas dcadas.


8. EM CARTAZ  DVD - CINCO HISTRIAS PARA UMA ATRIZ 
Entre as marcas deixadas pelos anos Berlusconi no cinema italiano, est a ausncia de atrizes  altura de nomes como Sophia Loren ou Silvana Mangano, lembrada com o lanamento de As Bruxas. Produzido por seu marido, Dino di Laurentis, o filme em episdios traz a direo de Pier Paolo Pasolini, Vittorio De Sica, Mauro Bolognini, Franco Rossi e Luchino Visconti, que sempre tinha a atriz no elenco de suas obras. No seu sketch, Silvana interpreta justamente uma estrela de cinema cansada da fama.


9. EM CARTAZ  MSICA - PORTENHO INTERNACIONAL 
Nascido no Alasca, de pai americano e me argentina, criado em Buenos Aires e curtido musicalmente na cena underground nova-iorquina, o cantor Kevin Johansen traz em seu trabalho a mistura de sons que a sua ascendncia e formao a. Em Bi, o seu quinto disco com a banda The Nada, ele se alterna nos idiomas espanhol, ingls e portugus e salta de ritmos latinos s baladas folk e ao pop globalizado com um senso de unidade invejvel. Exemplos so as verses de Modern Love (David Bowie), que ganhou uma pegada country, e de Everybody Knows (Leonard Cohen), cujo arranjo foi acrescido de bandonen. O fecho  em chave de ouro, o tango  antiga Nieva em Buenos Aires.


10. EM CARTAZ  AGENDA - CAPITAIS DO DELITO/EVANESCENCE/ASGER JORN 
Conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio

CAPITAIS DO DELITO
 (NatGeo, segunda-feira, 22h30)
O economista e escritor Conor Woodman passa-se por turista e se deixa roubar por tpicos ladres de cidades como Buenos Aires, Roma e Barcelona
 
 EVANESCENCE
 (Rio de Janeiro, So Paulo, Fortaleza e Recife, entre os dias 6/10 e 13/10)
A banda de gothic metal, que j vendeu mais de 25 milhes de discos, toca canes de seu novo CD
 
 ASGER JORN 
(ITO, So Paulo, at 28/10)
As 102 obras da mostra Um Desafio  Luz contemplam a produo em papel do artista escandinavo, que pertenceu ao grupo CoBrA


11. ARTES VISUAIS - PARA COMER COM OS OLHOS
MAM-SP faz "Big Brother" da arte e gastronomia, aproximando chefs e artistas para cozinhar no museu
 por Paula Alzugaray

Encontros de Arte e Gastronomia/Museu de Arte Moderna, SP/ at 24/11

PARCERIA - O chef Barattino ( dir.) e Laura Lima ( esq.) transformam comida em arte
 
Desde as naturezas-mortas at as mais banais representaes da Santa Ceia ao longo da histria da arte, a comida sempre foi o smbolo da ostentao ou fartura. O que pouco se discutiu durante esse percurso foi como a maneira de representar artisticamente a mesa e a culinria acabou por reproduzir sculos de tradio gastronmica, quando o ato da refeio passou a ser vigiado por regras de etiqueta. Aquilo que antes se dava em um ambiente de comensalidade vem se tornando, cada vez mais, um ritual solitrio e individualizado. Constataes e reflexes como essas regem os Encontros de Arte e Gastronomia, projeto pioneiro no Brasil a propor uma ponte entre o mundo da gastronomia e o da arte.
 
A sala Paulo Figueiredo do MAM-SP foi transformada em um hbrido de cozinha e espao expositivo que, desde o dia 3 de setembro, vem recebendo chefs e artistas plsticos para o trabalho em duplas arranjadas pelos idealizadores do projeto, o curador Felipe Chaimovich e o professor de culinria Laurent Suaudeau. Mas se engana quem pensa que o museu foi adaptado para um restaurante, apesar de algumas duplas  que trabalham de tera-feira a domingo e so trocadas a cada semana  terem servido refeies para o pblico. Esse foi o caso da parceria entre o coletivo carioca Opavivar e o chef Leo Filho, que distribuiu marmitas feitas a partir de receitas de sua famlia. Essa  uma oportunidade para que as pessoas venham ao MAM e vivam a experincia sem a expectativa de serem servidas como em um restaurante, esclarece Chaimovich.

DELCIA - O artista Caetano Dias realizou ao dedicada a So Cosme e So Damio
 
O questionamento sobre a reduo da culinria ao ato de consumo esteve presente no trabalho da dupla formada pela artista Laura Lima e pelo chef Jos Barattino, do Hotel Emiliano, de So Paulo. Entre os dias 18 e 22 de setembro, Laura Lima e Barattino produziram uma refeio vegetariana cujos ingredientes passaram por um processo de desidratao, sendo posteriormente embalados a vcuo. A proposta  que a refeio seja doada ao museu, como uma obra museolgica, para ser consumida em um jantar marcado para acontecer daqui a 30 anos. J Caetano Dias, que, no Panorama da Arte Brasileira de 2005, apresentou um Cristo feito com rapadura, realizou, entre 25 e 29 de setembro, uma comemorao ao dia de So Cosme e So Damio. Ao trabalhar ao lado da chef e doceira do restaurante Girarrosto, Amanda Lopes, em uma ao denominada Jardim das Delcias, ambos criaram um cordeiro feito de chocolate, rodeado por doces que se estendiam para alm da mesa. O trabalho  uma referncia  figura do corpo de Cristo e a outros atos antropofgicos, explica Dias. 

A srie de Encontros vai durar dez semanas e  tambm uma oportunidade para o pblico conhecer o que h de ponta na rea da tecnologia gastronmica. Para a ocasio, foram importados dois foges com sistema de depuradores de fumaa que devolvem o ar limpo ao ambiente, impedindo a fumaa de se espalhar pelo museu (tambm abrigando atualmente uma mostra de Adriana Varejo). A gastronomia  uma cultura que tem de ser entendida como criao livre de regras. Nesses termos, criamos essa situao vivencial, sendo meio Big Brother, com todos os focos no sentido da cozinha, explica Chaimovich. 

Entre 9 e 13 de outubro, o artista Rodrigo Bueno e a chef Ana Luiza Trajano, do restaurante Brasil a Gosto, realizaro uma ao inspirada nas comidas de santo oferecidas aos orixs. Nina Gazire


12. ARTES VISUAIS - CINEMA MARGINAL INSPIRA PROJETO PIV
Da prxima vez eu fazia tudo diferente/ Espao Cultural Piv  Edifcio Copan, SP/ at 14/10
 
No curta Documentrio, de 1966, dois jovens duros e entediados perambulam pelo centro de So Paulo,  procura de um filme perfeito, que esteja em cartaz nos cinemas da cidade. Quando nada parece saciar o fastio, Rogrio Sganzerla, diretor do filme, interrompe a narrativa cinematogrfica para discutir as dificuldades de se fazer cinema no Brasil. Os comentrios tinham como pano de fundo uma promessa falida. Os jovens cineastas alvejavam um pas que recentemente tivera seu processo democrtico interrompido por um golpe militar e cujas esperanas se esvaam em uma So Paulo que sonhava em ser cosmopolita. Ao final, sobre a imagem da dupla andando em direo ao recm-inaugurado edifcio Copan, a voz em off de Sganzerla emite a sentena: Da prxima vez eu fazia tudo diferente.
 
Quarenta e seis anos depois, quando o Brasil volta a ser o pas do futuro, o bordo dito por Sganzerla serve como ponto de partida para a primeira exposio do recm-criado projeto Piv, que atualmente ocupa 3,5 mil metros quadrados de um antigo hospital odontolgico localizado no edifcio Copan.
 
O espao, que estava abandonado havia mais de 20 anos, foi cedido para o projeto idealizado pela artista Fernanda Brenner, que pretende transformar o local em um centro permanente de artes a partir de parcerias com instituies e galerias. O Copan  o smbolo da cidade e seu projeto original nunca foi concludo. Nossa ideia  estabelecer um dilogo a partir de encontros com artistas que pensem o Copan em todas as suas camadas simblicas e arquitetnicas, explica Marta Ramos-Yzquierdo Esteban, diretora de planejamento e comunicao do projeto Piv. 

Desta primeira mostra, que tem a curadoria de Diego Matos, participam 13 artistas. H trabalhos contextualizados para o local, como o luminoso Aurora (2003), de Carmela Gross (foto), ou trabalhos especialmente realizados, como as intervenes de Nazareno. Eu quis realizar intervenes e trazer trabalhos que tivessem uma relao com a histria do lugar. O Copan  um cone da arquitetura. Foi inaugurado na mesma poca de Braslia, quando o Pas tinha um projeto de avano e futuro, explica o artista, que, na interveno Muito bom para se perder, embutiu nas paredes duas esculturas que representam dom Pedro II ainda criana. Alm da curadoria de Diego Matos, as galerias Emma Thomas e Mendes Wood ocupam uma sala com trabalhos de Lucas Simes e Alexandre Brando, e Jen Denike assina a curadoria de filmes. NG

